
O cenário musical global despertou em luto nesta segunda-feira, 24 de novembro de 2025, com a notícia do falecimento do renomado cantor e compositor jamaicano Jimmy Cliff, aos 81 anos. Figura lendária do reggae, ator e ativista, Cliff deixa um legado artístico que transcendeu fronteiras e culturas, encontrando no Brasil, especialmente no estado do Maranhão, um ponto de conexão afetiva e musical.
A partida do artista reverberou intensamente entre os músicos brasileiros, que prontamente utilizaram suas plataformas para ressaltar a grandiosidade de Jimmy Cliff para a música mundial e para o fortalecimento da identidade afrodiaspórica no país, reconhecendo-o como um verdadeiro pilar e inspiração para diversas gerações.
O cantor e compositor Gilberto Gil manifestou sua homenagem nas redes sociais, sublinhando a influência seminal do jamaicano em sua própria obra e na evolução do reggae moderno. Gil fez questão de frisar que “Jimmy Cliff influenciou e seguirá influenciando minha música. Obrigado por tanto”, e contextualizou a relevância de Cliff ao mencionar que “Bob Marley estoura nos rádios depois do Cliff, inclusive pela mesma gravadora”, situando-o como um dos precursores do gênero.
“Hoje nós perdemos um mestre, um mestre da música afrodiaspórica, Jimmy Cliff. Jimmy Cliff, junto com Peter Tosh e Bob Marley, instaurou uma revolução – uma revolução que sai da Jamaica representando o sentimento de todos os pretos emigrados nas Américas, e essa música se torna sucesso no mundo inteiro.”
Em um depoimento emocionado, o também cantor e compositor Chico César recordou a relevância histórica e política de Jimmy Cliff, descrevendo-o como um ser humano muito doce e educado, que nutria um profundo amor pelo Brasil. Chico César teve a oportunidade de conviver com o artista em festivais na Austrália, Nova Zelândia e Singapura, experiências que reforçaram sua admiração pelo legado e pela pessoa de Cliff, desejando-lhe um eterno descanso.
No Maranhão, estado onde o reggae se tornou um elemento intrínseco da cultura local, a notícia da morte de Jimmy Cliff assumiu uma dimensão particularmente sentida. Ademar Danilo, jornalista, DJ e diretor do Museu do Reggae, resumiu o sentimento de tristeza que tomou conta da comunidade: “O dia amanheceu triste”, ao abordar a importância do artista para a trajetória do reggae no Brasil.
Ademar Danilo destacou que o Maranhão foi um dos primeiros lugares fora da Jamaica a abraçar a música de Cliff como parte essencial de sua rotina. As canções do artista já ressoavam nos salões de dança maranhenses desde o início da década de 1970, muito antes da popularização de outros grandes nomes do reggae, como Bob Marley.
O álbum Follow My Mind, lançado em 1975, teve um impacto avassalador no estado, tornando-se um verdadeiro fenômeno. Cinquenta anos depois de seu lançamento, em 2025, muitas músicas desse disco ainda são um sucesso vibrante em São Luís, fazendo com que as pessoas se lancem à dança assim que os primeiros acordes são ouvidos, demonstrando a atemporalidade e a profunda conexão com a cultura local.
Jimmy Cliff não só influenciou musicalmente o Maranhão, mas foi fundamental na construção da identidade regueira da capital, a ponto de se sentir verdadeiramente em casa ali, visitando clubes de reggae na periferia, conversando e até colhendo mangas, e sendo o responsável por popularizar o apelido de São Luís como a “Jamaica brasileira”.
Ademar Danilo também recordou um encontro inesperado com Cliff durante uma reunião no Institute of Jamaica, onde representava o recém-fundado Museu do Reggae. Na ocasião, Cliff, que havia recebido o título de doutor honoris causa dias antes, lembrou-se das conversas que tiveram no Brasil, um momento que o diretor descreveu como de grande importância e reconhecimento mútuo.
O impacto da perda de Jimmy Cliff no Maranhão é tão significativo que, nas palavras de Ademar Danilo, “Hoje em São Luís só há dois assuntos no meio do reggae: o festival que aconteceu ontem, a Ilha do Reggae, e a morte de Jimmy Cliff. Dormimos alegres e acordamos tristes.” Jimmy Cliff, com clássicos como Many Rivers to Cross, The Harder They Come e You Can Get It If You Really Want, foi, sem dúvida, um dos maiores responsáveis por difundir o reggae globalmente, pavimentando o caminho para sua eventual explosão internacional, mesmo antes de Bob Marley alcançar o estrelato mundial.